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domingo, 10 de fevereiro de 2019

Estudos sobre o agressor ajudam a combater a violência contra a mulher

Por Carolina Dantas e Mariana Lenharo
A violência contra a mulher ocorre, na maioria das vezes, no contexto da relação de um casal. Mas, até recentemente, grande parte dos estudos sobre o tema focava exclusivamente na vítima, deixando de lado a reflexão sobre o que leva o homem a agredir e quais intervenções sobre o agressor podem impedir novos atos de violência.
Hoje, num contexto em que a Lei Maria da Penha prevê a adoção de estratégias de reabilitação para os agressores, as pesquisas sobre o homem autor de violência têm se desenvolvido com maior intensidade no Brasil e no mundo. Mas o campo precisa se expandir ainda mais, já que a falta de conhecimento do assunto dificulta a criação de políticas públicas.
O psicólogo Adriano Beiras, professor do programa de pós-graduação e do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), observa que havia, no passado, um preconceito com os trabalhos relacionados ao agressor. “Até então, se entendia que trabalhar com os homens era trabalhar contra as mulheres. O que tem crescido agora é o entendimento de que quando se trabalha com o homem autor de violência está se trabalhando para a mulher; para ele deixar de bater em outras mulheres.”
O G1 conversou com pesquisadores que optaram por analisar quem agride para descobrir o que a ciência já revelou sobre o assunto.
Perfil do agressor
A pesquisadora Anne Silva, também da UFSC, junto com os colegas Elza Berger Salema Coelho e Rodrigo Otavio Moretti-Pires, fez uma revisão sistemática dos estudos já publicados sobre o homem autor de violência contra a parceira íntima.
Eles analisaram 33 artigos de todo o mundo para tentar encontrar uma característica em comum entre os homens que chegam a agredir uma mulher, seja fisicamente, psicologicamente ou moralmente.
“A conclusão a que eu cheguei nessa revisão foi que, apesar de ter uma faixa etária que está mais relacionada e serem indivíduos com menos escolaridade, as pesquisas mostram que homens de todos os tipos podem cometer violência contra a companheira. Isso é importante levar em conta para a gente tirar da cabeça alguns preconceitos”. diz Silva.
Esta também é a percepção de Beiras.
“Qualquer homem pode cometer atos violentos, na medida em que a violência é associada com uma característica da masculinidade; existe uma naturalização da violência. Quando se estabelece um perfil focando em classe social, raça, patologias e outras questões, isso acaba por reduzir uma questão social e complexa.”
Faixa-etária, escolaridade e emprego
Quanto à idade dos agressores, os dados apontam que desde adolescentes até idosos podem agredir. A faixa etária não é algo determinante, mas, em grande parte dos casos, os homens têm entre 25 e 30 anos, segundo o estudo de Silva.
Sobre a escolaridade, o trabalho mostra que 47,6% dos homens que agridem não completaram o ensino fundamental. Ainda segundo a análise, o fato de o parceiro ser desempregado, ser aposentado ou ter um trabalho informal aumenta em quase duas vezes o risco de ele cometer violência.
Silva aponta para uma possibilidade levada em conta com relação à classe social: homens e mulheres que pertencem à classe mais alta não chegam a entrar nos dados das pesquisas. “Por enquanto, delegacias e hospitais são áreas em que as pessoas de classes mais baixas vão procurar auxílio, e as de classes mais altas vão procurar um profissional particular e não vão entrar nas estatísticas.”
Álcool e drogas
Um ponto que se repete nas pesquisas é a associação entre a violência contra a mulher e o consumo de álcool e drogas. Pesquisas feitas no Piauí, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Paraná indicam que homens que bebem têm mais probabilidade de agredir mulheres com quem convivem.
 Já o estudo coordenado por Alexandra Bittencourt Madureira, professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), no Paraná, que avaliou o perfil de homens autores de violência na cidade de Guarapuava, aponta que o consumo de álcool foi encontrado em 60% dos casos e, associado a outras drogas como maconha, cocaína e crack, em 7,7%. O uso de drogas isoladas foi observado em 3,1%.
“Existe essa questão de o efeito do álcool e de drogas ser usado como justificativa para a agressividade. Mas não é a bebida que faz agredir. O homem já tem essa característica da agressão e o álcool acaba sendo apenas um estopim para acontecer, não o único motivo”, diz Madureira.
Silva aponta outra situação comum em casos de violência com o uso da bebida. “Não é pelo fato de o homem estar bêbado, mas sim sobre quando a mulher palpita sobre o homem usar a bebida. Tenho encontrado muito isso nas pesquisas que tenho feito.”
O que diz a neurociência
Além dos estudos no âmbito das ciências sociais, a neurociência também tem se ocupado de avaliar os autores de violência contra a mulher. A pesquisadora Natalia Bueso Izquierdo, do Centro de Investigação Mente, Cérebro e Comportamento da Faculdade de Psicologia da Universidade de Granada, na Espanha, é uma das autoras de um estudo que comparou o funcionamento do cérebro de agressores com o cérebro de outros criminosos por meio de ressonância magnética funcional.
A conclusão do estudo, publicado em abril deste ano, foi que os cérebros dos homens que agridem mulheres funcionam de forma diferente em comparação aos de outros criminosos.
Cérebro de homens agressores (esq.) funcionam de forma diferente do que os de outros criminosos (dir.) (Foto: Universidade de Granada)
“O estudo nos permitiu entender quais são as áreas do cérebro envolvidas nos homens que agrediram suas parceiras ou ex-parceiras, o que nos ajuda a entender melhor este tipo de sujeito e, portanto, no futuro, implementar alguma melhora nas terapias que eles recebem atualmente”, afirma Izquierdo, em entrevista por e-mail.
Ela observa que, apesar de não haver um perfil único que caracterize o agressor, algumas das características mais descritas na literatura sobre esses homens são a inflexibilidade cognitiva, a presença de pensamentos distorcidos, a impulsividade e o fato de não assumir os próprios atos.
Para a pesquisadora, é difícil determinar que peso têm os fatores biológicos em comparação aos fatores sociais que levam o homem a cometer atos de violência contra a mulher. “Na verdade, para nós e a partir de nossa perspectiva, consideramos todos os fatores como um todo, já que cada ser humano é o resultado de toda essa combinação de fatores sociais, culturais e biológicos.”

Reabilitação do agressor

Beiras observa que a luta contra a violência contra a mulher priorizou, no início, a penalização do agressor, o que foi importante na época. “Agora precisamos de uma justiça mais progressista no sentido de pensar para além da criminalização, promovendo práticas psicossociais e de transformação social, centradas no retorno destes sujeitos à sociedade, respeitando direitos humanos, equidade de gênero e diversidade”, diz o pesquisador.
De acordo com Silva, a questão do machismo é um fator importante em relação à violência, mas não se pode fazer uma análise simplista. “A gente não pode de maneira nenhuma usar o perfil como uma desculpa, ou simplesmente como uma causa/efeito: se o homem bebe, ele bate; se o homem não bebe, não bate. Isso não é verdade. Por isso, quando a gente vê questão de perfil, nunca vê um fator só.”
Ainda segundo a pesquisadora, é preciso analisar todos os fatores relacionados e aproveitar as análises para trabalhar com esses agressores. “Um fator sozinho não significa nada. Na verdade o que eu tenho encontrado: a escolaridade do homem, o tipo de trabalho e a renda dele estão juntos ali trabalhando para que ele tenha uma maneira diferente de se comunicar, não saiba resolver os conflitos, acabe se envolvendo com o uso de drogas e use violência”, completa.
Segundo um mapeamento coordenado pelo pesquisador Adriano Beiras, em 2014, havia 25 serviços de atenção em grupo a homens autores de violência contra mulheres. A pesquisa foi feita no Instituto Noos, do Rio de Janeiro. Hoje, segundo dados preliminares de um novo mapeamento que está sendo conduzido por Beiras na UFSC, também em parceria com o Insituto Noos, há aproximadamente 40 grupos do tipo.
Ele enfatiza a necessidade da criação de uma política nacional para os grupos de reabilitação de homens autores de violência. “Hoje, esses grupos são feitos graças à boa vontade de organizações, ONGs, juristas e serviços que se sensibilizam para a questão. Com a mudança de gestão, os serviços terminam por falta de recursos.”
Tratam-se de grupos de reflexão coordenados por um ou dois facilitadores, que estimulam discussões sobre gênero, masculinidade e o entendimento da violência. Um dos objetivos principais é desnaturalizar a violência cometida pelo homem, ou seja, levar ao entendimento de que não é natural que o homem cometa atos violentos.
TEXTO ORIGINAL DE G1
fonte: https://www.psicologiasdobrasil.com.br/estudos-sobre-o-agressor-ajudam-combater-violencia-contra-mulher/

Precisamos falar sobre ‘violências’: agressão é só tapa na cara?


Por Laiz Chohfi
Ela chegou no consultório dizendo que estava tendo altos e baixos. Não sabia mais se deveria ou não se separar do marido. Ele, que a deixava sem dinheiro nem pra água de casa, agora estava oferecendo presentes e dando beijos de boa noite – embora ainda a deixasse sem dinheiro nenhum pras compras da casa…
Ela disse que não estava mais entendendo o que estava acontecendo, se de fato ele era uma pessoa boa ou não. Não sabia mais no que acreditar, pensava que poderia estar vendo coisas onde não tem, que talvez ele fosse mesmo o homem maravilhoso do qual ela sentiria falta – ele disse, por várias vezes que, depois de se separar, ela veria o quão maravilhoso ele era. E ela chorou muito nesse dia enquanto falava.
Muitas vezes a gente pensa que violência é só “tapa na cara” e derivados. Que sempre exige um contato físico. E isso está certo? De certa forma, sim. Mas violência é muito mais do que violência física somente. E hoje vamos falar dessa violência velada, que é a violência possível a partir das palavras.
A vinhetinha de caso aí acima nos permite pensar um pouco a esse respeito. Deixar alguém que, no momento, depende de você, sem ter como se virar sem ser pedindo, é muita humilhação. E humilhação é violência. Com palavras e ações, que não são necessariamente “porrada”. É colocar o outro num lugar de muita vulnerabilidade, é fragilizar o outro. Além disso, deliberadamente confundir o outro, não ser claro ou escolher transmitir duplas mensagens, também é agressão.
GIL
Falei aí acima de confundir o outro. Vamos à uma vinhetinha pra pensar a esse respeito mais aprofundadamente?
Ela dizia que tinha vivido um relacionamento abusivo. Seu namorado, ela descobrira depois, tinha outras três namoradas. Dizia pra ela que esses relacionamentos já tinham acabado, que um deles inclusive havia sido um relacionamento aberto, e que não teria o menor problema eles ficarem juntos. Segundo ela, ele a cada dia ele dizia uma coisa diferente. Podia ser o nome de uma ex (na verdade, atual), a data de início ou do término do relacionamento… Enfim, ela sempre tinha entendido mal, entendido errado, estava esquecida ou qualquer coisa do gênero. No fim, ela acabou terminando com ele quando ficou sabendo dos outros três relacionamentos. Sentia-se muito mal por ter sido enganada e por não ter percebido nada.
Mentir, omitir, insinuar ou confundir pode ser violência também. Fez o outro sofrer? É violência. A régua é o sofrimento do outro, não o que eu penso como sendo ou não violência. É o corpo do outro que dita o tom e o limite. Outra trilha de pensamento comum nesses casos é mais ou menos assim: nossa, mas que trouxa ela! Vai ficar com um cara assim por que? É como se a culpa fosse só dela, como se ela tivesse escolhido não enxergar. Como se ela tivesse culpa de o cara ter sido um babaca. E adivinhe só? Culpabilizar também pode ser violência. Claro que ela tem uma parcela de responsabilidade. Mas é de responsabilidade, não de culpa.
Última vinhetinha do dia:
Ele havia agredido a professora. Pegou-a pelo braço quando ela o usava de exemplo de “aluno que não se deve ser” para a turma. Durante a conversa, a mãe, que estava junto, disse que a professora só achou aquilo que aconteceu fora da normalidade porque ela não tem filhos. Se tivesse, entenderia que essas coisas acontecem e não teria se chocado a ponto de levar a situação para a diretoria da escola.
Muitas violências acontecendo nesse último causo. Primeiro, a mais óbvia, que é a agressão do aluno à professora. Essa é física, o que a torna quase que indiscutível nesse caso. Mas e as veladas? A primeira delas que eu gostaria de falar a respeito é a da mãe para com a professora. Deslegitimar o que a professora disse por ela ser quem é, ter a história e/ou família que tem é violência também. Então por não ter filhos ela não tem o que dizer da situação?! E, agora, a violência mais escondida dessa história: a da mãe em direção ao filho. Desresponsabilizar, dizer que o que o outro faz é aceitável, que nada tem problema, “sempre passar a mão na cabeça” pode ser violência também. E sabe por que? Porque impedimos o outro de crescer a partir do ato de se responsabilizar pelas próprias ações no mundo.
Portanto, é muito importante que prestemos atenção nas nossas ações e palavras por aí afora. Tudo que a gente diz pode deixar marcas no outro. Palavras podem ser tão ou mais violentas do que agressões físicas. Fique atento!
TEXTO ORIGINAL DE HYPENESS
* Laiz Chohfi trabalha como psicóloga na Universidade de São Paulo (USP). É pesquisadora no LEFE-USP (Laboratório de Estudos em Fenomenologia Existencial e Prática em Psicologia), professora na Universidade Paulista (UNIP) e atende em consultório particular. Mãe de dois gatos, é amante de (dirigir) bons carros e está constantemente pensando na próxima tatuagem.
Fonte: https://www.psicologiasdobrasil.com.br/precisamos-falar-sobre-violencias-agressao-e-so-tapa-na-cara/

A violência na família e suas consequências


Por Débora Dias
A violência é uma das questões sociais que mais causam preocupação e é abordada como um problema de saúde pública em todo o mundo. Especificamente, a Violência Intrafamiliar é aquela se refere a todas as formas de abuso que acontecem entre os membros de uma família, caracteriza as diferenças de poder entre estes, e podem envolver a relação de abuso que incluem condutas de uma das partes em prejudicar o outro (Seldes, Ziperovich, Viota & Leiva, 2008).
Dentre os tipos de Violência Intrafamiliar, a Violência Intrafamiliar Infantil é definida como aquela que acontece dentro da família ou até mesmo no lar onde a criança convive; cometida por algum parente ou pessoas que tenham função parental, ainda que sem laço de consanguinidade, e pode ser caracterizada de formas diferentes como: física, psicológica, sexual e negligência. Geralmente é mantida por meio das relações de subordinação e dominação e é um dos principais motivos para as crianças fugirem de casa e do convívio familiar (Williams, 2004). O problema da Violência Intrafamiliar Infantil não ocorre de forma fragmentada, e sim de forma dinâmica. No entanto, é importante que se faça uma definição adequada e didática para que este seja compreendido e tenha implicações práticas para a prevenção e o manejo. Os principais tipos de maus tratos passíveis de notificação serão descritos a seguir (Pires & Miyazaki, 2005).
A Negligência é a omissão de responsabilidade e de cuidados básicos de atendimento às necessidades físicas e emocionais prioritárias e de proteção à criança frente a situações graves que podem ser evitadas. Uma forma de negligência considerada grave é o abandono, que por sua vez evidencia a ausência de um vínculo adequado dos responsáveis para com a mesma. Para Gomide (2004) pais negligentes agem como espectadores e não como participantes ativos da educação dos filhos. Assim, esse tipo de violência é considerada a forma mais frequente de maus tratos e inclui a negligência física, emocional e educacional. A Negligência Física abrange a maioria dos casos de maus tratos e caracterizam problemas como: ausência de cuidados médicos pelo não reconhecimento ou admissão por parte dos pais ou responsáveis, abandono ou expulsão da criança de casa por rejeição, ausência de alimentação, cuidados de higiene, roupas, proteção a alterações climáticas, imprudência ou desobediência às regras de trânsito, falta de medidas preventivas para evitar intoxicação exógena, supervisão inadequada (como deixar a criança sozinha e sem cuidados por longos períodos).
A Negligência Emocional inclui ações como falta de suporte emocional, afetivo e de atenção, exposição crônica à violência doméstica, permissão para o uso de drogas e álcool (sem intervenção), permissão e encorajamento de atos delinquentes, recusa ou não procura por tratamento psicológico quando recomendado. A Negligência Educacional compreende; permissão para faltar às aulas, não realização da matrícula em idade escolar e recusa para matricular a criança em escola especial quando necessário (Pires & Miyazaki, 2005).
A Violência Física pode ser praticada por parte dos pais, responsáveis, cuidadores, familiares ou pessoas próximas, assim como os outros tipos de Violência Intrafamiliar Infantil. Neste caso, a força física é usada de forma intencional, isto é, não acontece de forma acidental, e tem como objetivo ferir e lesar a vítima. Na maioria das vezes este tipo de violência deixa marcas no corpo, o que possibilita seu diagnóstico. As marcas indicativas do abuso incluem hematomas, escoriações, lacerações, contusões e queimaduras.
O grau de violência física pode variar consideravelmente e as agressões mais frequentes incluem tapas, beliscões, chineladas, chutes, cintadas, murros, queimaduras com brasa de cigarro, água quente e ferro elétrico, intoxicação com psicofármacos, sufocação, mutilação, espancamentos e agressões que conduzem à morte. A Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome) é destacada como subtipo da violência física. Este termo é utilizado para denominar uma agressão frequentemente praticada e que não deixa marcas. Envolve sacudir ou chacoalhar fortemente a criança, principalmente no sentido ântero-posterior, podendo provocar graves lesões cerebrais, hemorragias oculares, causar atraso no desenvolvimento psicomotor e morte (Pires & Miyazaki, 2005).
A Violência Sexual pode ser definida como uma situação em que a criança é usada para satisfação sexual hetero ou homossexual, com base em uma relação de poder, utilizando força física, cujo agressor esteja em estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado do que a criança, sendo que este pode usar de influência psicológica, uso de armas ou drogas como formas de coerção (Pires & Miyazaki, 2005). Pode ser caracterizado de duas maneiras: sem contato físico (telefonemas obscenos, exibicionismo e voyeurismo) e com contato físico (atos físico-genitais, estupro, sadismo, pornografia e prostituição infantil) (Brino, 2006).
A violência sexual pode incluir desde carícias não consentidas, manipulação de genitália, mama ou ânus, olhar perturbador e insistente, cantadas obscenas, relações sexuais com menores de 14 anos – mesmo com consentimento (essa prática é considerada violência presumida porque até essa idade , entende-se que o jovem não tem maturidade para a tomada de decisões dessa natureza) (Arruda,Zamora & Barker, 2003).
A Violência Psicológica é considerada toda ação ou omissão que causa ou visa a causar dano à autoestima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. Inclui ameaças, humilhações, agressões, chantagens, discriminação e exploração. É a prática mais difícil de ser identificada, embora ocorra com bastante frequência. Pode levar a criança a se sentir desvalorizada, ansiosa e a adoecer com facilidade. Em situações mais graves pode até levar ao suicídio (Arruda, et al., 2003).
Consequências da Violência Infrafamiliar Infantil
A criança agredida em sua própria casa, local onde supostamente estaria protegida da violência, fica exposta a uma situação de grande desamparo. O fato de conviver com seu agressor e enfrentar o pacto do silêncio que costuma envolver as pessoas mais próximas nesse tipo de situação, estilos parentais disfuncionais ou mesmo a redes de apoio ineficazes, podem ser considerados fatores de risco[1] para a criança e podem apresentar consequências extremamente prejudiciais ao seu desenvolvimento e ao seu ambiente social a curto e a longo prazo (Garbin, Queiroz, Costa& Garbin, 2010; Gallo & Williams, 2008).
Os efeitos da exposição à Violência Intrafamiliar Infantil podem ser ob­servados nas funções cognitivas e emocionais, na dinâmica escolar e social (Pereira, Santos & Williams, 2009). Os sintomas mais frequentes são: falta de motivação, isolamento, ansiedade, comportamento agressivo, depressão, baixo desempenho e evasão escolar, dificuldade de aprendizagem, pouco aproveitamento, repetência e necessidade de educação especial (Brancalhone, Fogo & Williams, 2004). Os prejuízos podem surgir como danos imediatos: pesadelos repetitivos, raiva, culpa, vergonha, medo do agressor e de pessoa do mesmo sexo que este, quadros fóbico-ansiosos e depressivos agudos, queixas psicossomáticas, isolamento social e sentimentos de estigmatização.
Podem também acontecer como danos tardios: aumento significativo na incidência de transtornos psiquiátricos, dissociação afetiva, pensamentos invasivos, ideação suicida, fobias mais agudas, níveis intensos de ansiedade, medo, depressão, isolamento, raiva, hostilidade e culpa, cognição distorcida, tais como sensação crônica de perigo e confusão, pensamento ilógico, imagens distorcidas do mundo e dificuldade de perceber a realidade, redução na compreensão de papéis complexos e dificuldade para resolver problemas interpessoais (Day, Telles, Zoratto, Azambuja, Machado, Silveira, Debiaggi, Cardoso, Blank, 2003). De acordo com Sidman (1989/2003):
Em casa, o abuso físico e verbal pode, realmente, manter filhos e esposos subservientes. Pais podem expressar desprazer com crianças e esposos uns com os outros, batendo neles ou isolando-os, retirando posses e privilégios, ou deixando de se comunicar. Quaisquer destas punições tornarão a ofensa menos provável de ocorrer novamente. Mas todas estas formas de coerção familiar tornam o lar um local do qual fugir. Dentre as consequências deste tipo de relação serão encontrados divórcio, abandono, doença mental e suicídio. (p. 18,19)
Andery e Sério (1997) afirmam que violência é sinônimo de coerção, embora seja discutível igualar violência ao termo coerção, porque nem toda coerção é um exemplo de violência. O termo coerção é utilizado como a presença de controle aversivo nas interações entre os homens e a natureza. Controle aversivo envolve punição, reforçamento negativo (fuga e esquiva) e privações socialmente impostas (Sidman,1989/2003), fatores que se encontram presentes em contextos de Violência Intrafamiliar Infantil.
A violência contra crianças e adolescentes que ocorre no país, tem cada vez mais repercussão na mídia, no entanto, muitos casos continuam na invisibilidade, pois nem todos são notificados por meio de denúncias (Pires & Miyazaki, 2005). A dificuldade envolvida em realizar as denúncias torna o contexto ainda mais arriscado, uma vez que a criança continua sendo exposta ao agressor. Por esse motivo, a violência pode demorar a ser caracterizada e prolongar-se por muito tempo.
Para combater a Violência Intrafamiliar Infantil, primeiramente é necessário identificá-la, denunciá-la e conhecer também quais são os direitos da criança. Assim, se torna mais evidente a necessidade de um trabalho interdisciplinar, em que vários profissionais, incluindo professores, médicos, psicólogos, pedagogos e assistentes sociais, no exercício de suas atividades, estejam envolvidos com o atendimento e a defesa dos direitos da criança e suas violações. A atuação desses profissionais é fundamental na identificação e prevenção da violência contra criança, pois pode determinar o seu rompimento, impedir que muitos casos continuem acontecendo e interromper o ciclo deste tipo de abuso (Acioli, Lima, Braga, Pimentel, Castro, 2011).
TEXTO ORIGINAL DE COMPORTE-SE
Imagem de capa: Shutterstock/kramynina

Referências

Acioli, R. M. L; Lima, M. L. C.,Braga, M. C., Pimentel, F. C. & Castro, S. G. (2011). Violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes: identificação, manejo e conhecimento da rede de referência por fonoaudiólogo em serviços públicos de saúde. Rev. Bras. Saúde Mater. Infant.[online]. vol.11, n.1, pp. 21-28.
Andery, M.A.P.A. & Sério, T.M.A.P. (1997). A violência urbana: aplica-se a análise da coerção? Em R.A. Banaco (Org.), Sobre Comportamento e cognição. Santo André: ARByes.
Arruda, S., Zamora& M. H., Barker, G. Org. (2003). Projeto Fortalecendo Bases de Apoio Familiares e Comunitárias para Crianças e Adolescentes. Cuidar sem Violência, Todo Mundo Pode. Guia Prático para Familias e Comunidades.108 pp.
Brancalhone, P.G., Fogo, J.C. & Williams, L.C.A. (2004). Crianças expostas a violência conjugal: avaliação do desempenho acadêmico. Psicologia:teoria e pesquisa, 20 (2), 113-117.
Brino, R. F. (2006). Professores como agentes de Prevenção do Abuso Sexual Infantil: Avaliação de um Programa de Capacitação. Tese de Doutorado. Universidade Federal de São Carlos.
Day, V. P., Telles, L. E. B., Zoratto,P. H., Azambuja, M. R. F., Machado, D. A., Silveira, M. B., Debiaggi, M. Reis, M. G., Cardoso, R. G. &Blank, P. (2003). Violência doméstica e suas diferentes manifestações. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul [online]. vol.25, suppl.1, pp. 9-21.
Gallo, A. E. & Williams, L.C.A. (2008).A Escola como Fator de Proteção à Conduta Infracional de Adolescentes. Cadernos de Pesquisa.38 (13), 41-59.
Garbin, C. A. S.; Queiroz, A. P. D. G.; Costa, A. A. &Garbin, N. A. J.(2010). Formação e atitude dos professores de educação infantil sobre violência familiar contra criança. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. especial 2, p. 207-216. Editora UFPR.
Gomide, P.I.C. (2004). Pais presentes, pais ausentes: regras e limites.Petrópolis:Vozes.
Pereira, P. C.,Santos, A.B. & Williams, L.C.A.(2009). Desempenho escolar da criança vitimizada encaminhada ao fórum judicial. Psicologia: Teoria e pesquisa, 25(1), 19-28.
Pires, A. L. D.& Miyazaki, M. C. O. S. (2005) Maus-tratos contra crianças e adolescentes: revisão da literatura para profissionais da saúde. ArqCiênc e Saúde. jan-mar.
Seldes, J. J.;Ziperovich, V.;Viota, A. & Leiva, F. (2008) Maltrato infantil: Experiencia de unabordajeinterdisciplinario.[online]. vol.106, n.6, pp. 499-504.
Sidman, M. (1989/2003). Coerção e suas implicações.Tradução e M. A. Andery& T.M. Sério. Campinas: Editora Livro Pleno.
Williams, L.C.A. (2004). Violência e suas diferentes representações. Em G.C. Solfa(Org.). Gerando cidadania: Reflexões, propostas e construções práticas sobre direitos da criança e do adolescente. (pp. 141-153). São Carlos: Rima.
[1] Eventos negativos e estressores que, quando presentes, aumentam a probabilidade de o indivíduo apresentar problemas físicos, sociais e emocionais.
Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.
Fonte: https://www.psicologiasdobrasil.com.br/violencia-na-familia-e-suas-consequencias-no-comportamento-infantil/

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Violência sexual: depois do estupro.


Por Juliana Conte
A vítima de  violência sexual tem de enfrentar uma série de obstáculos: prestar queixa na delegacia, onde, muitas vezes, ouve indiretas de policiais,  passar por exames invasivos no IML (Instituto Médico Legal) e ainda ir em busca de atendimento médico. Além das marcas físicas e psicológicas, o estupro traz riscos diretos para a saúde da mulher.
Muitas vítimas, por conta da vergonha e do medo, acabam demorando dias e até semanas para procurar atendimento médico adequado. O que não é recomendado, pois a maioria dos medicamentos precisa ser administrada horas depois do estupro. Aquelas que conseguem ultrapassar essa primeira barreira e chegam a um hospital de referência seguem um protocolo estipulado pelo Ministério da Saúde.
Dr. Jefferson Drezett, coordenador do Núcleo de Violência Sexual e Aborto Legal do Hospital Pérola Byington, em São Paulo – unidade da Secretaria de Saúde do Estado -, e um dos locais que mais recebem casos do gênero, explica que assim que a vítima dá entrada no ambulatório, a primeira medida é tomar um anticoncepcional de emergência, também conhecido como pílula do dia seguinte. A importância de buscar ajuda logo é mais uma vez reforçada, pois até 12 horas depois do estupro o medicamento previne a gravidez em 99% das vezes. “Em até cinco dias, conseguimos uma eficácia de 30%. Depois desse período, não há mais evidência científica que garanta que o medicamento vá funcionar”, explica.
A questão do tempo é muito importante, principalmente para prevenção do HIV. Para que os antirretrovirais realmente funcionem, a mulher precisa tomar a medicação o mais rápido possível, não ultrapassando a janela de 72 horas após o ocorrido. “A mulher precisa tomar a medicação por 28 dias. São três comprimidos após o café da manhã e três após o jantar. A medicação pode ser tomada em casa, não é preciso ir ao hospital.”
Os medicamentos, infelizmente, causam efeitos colaterais com frequência. Náuseas, vômitos e dor de estômago estão entre as principais queixas. Entretanto, ainda segundo o dr. Drezett, há uma boa aderência ao tratamento e cerca de 80% das vítimas o seguem até o fim.
Em seguida, a mulher deve tomar uma injeção (dose única) de ceftriaxona e azitromicina, antibióticos que servem para prevenir doenças sexualmente transmissíveis como sífilisgonorreia, cancro mole, clamídia e tricomoníase.
Se ela não for vacinada contra hepatite B ou não se recordar de ter tomado a vacina, é necessário receber a primeira dose e completar o esquema (três doses) posteriormente, considerando o intervalo de um e seis meses após receber a primeira dose.
É importante destacar que a vítima não precisa ficar internada para receber as medicações, tampouco é necessário fazer um boletim de ocorrência para ter acesso ao tratamento. Em tese, a mulher só fica no hospital se houver trauma ou mutilação ginecológica que requeiram algum tipo de intervenção cirúrgica. Entretanto, esses casos não são frequentes.
“Por isso a importância de fornecer um atendimento rápido e humanizado à vítima, para que ela se sinta segura e possa voltar o mais rápido possível para casa. Isto é, se a casa realmente for um ambiente seguro para ela. Senão, o serviço social é chamado para fornecer o acolhimento e o direcionamento necessários nesses casos. Nas semanas seguintes ela pode, se quiser, dar prosseguimento ao atendimento psicológico”, completa o obstetra.
É importante reforçar que a mulher, conforme previsto no inciso II do artigo 128 do Código Penal brasileiro, tem direito de realizar o aborto decorrente de estupro. É lei. “Um fato interessante é que as mulheres estão tendo muito mais informações e buscando seus direitos.”

Referência
O Centro de Referência da Saúde da Mulher do Hospital Pérola Byington recebe diariamente cerca de 15 vítimas de violência sexual, totalizando 4 mil casos anuais, entre mulheres, crianças e adolescentes. Por semana, são realizados de cinco a seis abortamentos legais, segundo o coordenador da unidade. As vítimas chegam de diversas cidades de São Paulo e, muitas vezes, de outros estados do país.
Desde 2013 há uma lei que garante atendimento imediato às mulheres vítimas de violência sexual, ou seja, todos os hospitais deveriam fornecer as medicações necessárias. No entanto, isso não ocorre. Por isso, os centros de referência ficam sobrecarregados e as mulheres precisam percorrer quilômetros para conseguir o atendimento adequado. “Metade dos casos que atendemos aqui vem de outros municípios. A lei existe e não é cumprida. Então, seria importante analisar se são os gestores de saúde que negam o atendimento ou os profissionais que são omissos. É lamentável, pois a vítima não consegue ser atendida nem por força de lei”, conclui Drezett.
TEXTO ORIGINAL DE DR DRAUZIO VARELLA
Imagem de capa: Shutterstock/rudall30
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Fonte: https://www.psicologiasdobrasil.com.br/violencia-sexual-depois-do-estupro/

A Violência Psicológica e os seus Reflexos na Saúde



A violência psicológica, muitas vezes silenciosa, pode ser tão ou mais nefasta que a violência física e pode deixar danos irreparáveis para o resto da vida.

Por Cristina Madeira
“Não existe nada tão raro como um homem inteiramente mau, a não ser talvez um homem inteiramente bom.” Denis Diderot
Salvo raras exceções do foro da saúde mental que podem envolver doença ou perversão, em que uma pessoa não é capaz de sentir ou expressar qualquer remorso, arrependimento ou compreensão por um mal ou dano infligido ao outro, no fundo não ser capaz de qualquer processo de identificação com outra pessoa: aquilo a que chamamos Empatia, nem tão pouco ter consciência e compreensão para ajuizar os seus atos e os seus comportamentos, sendo por exemplo, indiferente ao sofrimento ou sentimento do outro, parece ser unânime que ninguém é só bom ou só mau. Assim, podemos pensar que o mal e o bem coexistem em praticamente todas as pessoas, em menor ou maior grau. No entanto, felizmente, a maior parte destas consegue viver em sociedade de forma estável e adaptada ao meio envolvente sem provocar dano no(s) outro(s), como se de certa forma o seu lado bom prevalecesse.
De uma forma geral, culturalmente a ideia do mal relaciona-se com tudo aquilo que não é desejável ou que deve ser destruído mas o mal, a dor e a violência aplicados ao outro existe e as suas “expressões” podem ser diversas, umas mais explícitas, outras mais subtis mas sempre com consequências nefastas para quem por elas é atingido.
Quando falamos em violência falamos numa diversidade de problemas e realidades, como por exemplo:
  • Violência Emocional ou Psicológica;
  • Violência Verbal;
  • Violência Física;
  • Violência Social;
  • Violência Sexual;
  • Negligência.
Sabemos hoje que a violência psicológica ou emocional é uma agressão tão ou mais prejudicial que a violência física, sendo considerada a mais silenciosa de todas as formas de violência. Por poder ser tão subtil faz com que muitas vezes não seja corretamente identifica, nem a própria pessoa que é violentada tem a real noção de que está a ser alvo deste tipo de agressão.
A violência psicológica não deixa marcas “visíveis”, uma vez que o mal que provoca ao outro é por “dentro” mas a nível emocional e psicológico pode deixar “cicatrizes” para o resto da vida.
Pode assumir a forma de:
  • Rejeição
  • Depreciação
  • Discriminação
  • Humilhação
  • Desrespeito
  • Punições ou castigos exagerados
  • Isolamento relacional
  • Intimidação
  • Domínio económico
  • Ameaça de morte
Frequentemente a “estratégia” utilizada pelo agressor passa pela mobilização emocional e psicológica da pessoa vitimizada para satisfazer todas as suas necessidades de atenção, de carinho e de importância. De forma dissimulada o agressor tenta inferiorizar a pessoa, tornando-a dependente e com sentimentos de culpa.
Mas é bom ter em mente que ninguém está verdadeiramente só e que existem “redes de apoios” e serviços que podem proteger e apoiar pessoas que são vítimas de algum tipo de agressão! Também é bom recordar que a lei portuguesa penaliza as situações de agressão identificadas e que por isso pode ser vital assinalar uma situação de violência. Seja a nível psicológico, físico, social, sexual ou de outro tipo e seja infligida a uma criança, a um adolescente, a um adulto, a uma pessoa idosa ou a uma pessoa portadora de deficiência física ou mental.
A desinformação e o medo por parte das pessoas pode dar força ao agressor, pelo que é urgente inverter isso e sensibilizar as pessoas para o compromisso da não violência e da não discriminação.
Atualmente o art.º 152 do Código Penal referindo-se a violência doméstica, refere que existe crime de violência quando existem “maus tratos físicos e psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais (…) a pessoa de outro ou do mesmo sexo” com quem o agressor “mantenha ou tenha mantido uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem habitação”.
Danos da Violência Psicológica na Saúde
A Organização Mundial da Saúde – OMS define saúde como “o completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de enfermidade”. Desta forma podemos considerar que a saúde depende de um equilíbrio e de um bem-estar relacionados com as questões do corpo, onde se inclui a mente, a componente física e emocional (nível celular) e as questões relacionais e macro (nível social).
Os efeitos da violência psicológica são vastos e sensíveis e podem permanecer durante muito tempo silenciosos.
Podem incluir:
  • Desenvolvimento desequilibrado da personalidade (no caso das crianças)
  • Falta de esperança
  • Dificuldade em confiar
  • Dificuldade em criar laços e em construir relações
  • Influência negativa na vida sexual da pessoa vitimada
  • A pessoa vitimizada, consoante a gravidade das agressões emocionais e psicológicas, pode mais tarde passar a ter o papel de agressor em vez do de vítima.
Os sintomas apresentados pelas pessoas que sofrem de violência psicológica refletem muitas vezes, o stress de lidar repetidamente com as agressões verbais, humilhações e isolamento social. Estes sintomas podem potenciar em algumas pessoas o consumo de substâncias e a automedicação, traduzindo-se num consequente aumento de riscos para a saúde. Outra dimensão importante no que se refere às raparigas e às mulheres é o impacto que a violência psicológica pode ter na saúde reprodutiva, direta ou indiretamente e onde se pode incluir: a gravidez não desejada, o acesso restrito ao planeamento familiar, o recurso a abortos ilegais, as complicações resultantes de gravidezes de alto risco e da falta de assistência médica, as infeções sexualmente transmissíveis, os problemas psicológicos, incluindo o medo de contacto e perda de interesse ou prazer sexual.
Algumas Consequências de Ordem Psicológica:
  • Ansiedade
  • Angústia
  • Baixa autoestima
  • Irritabilidade
  • Depressão
  • Sentimento de incapacidade
  • Sentimento de culpa
  • Perda de memória
  • Abuso de álcool e drogas
  • Diagnóstico de pânico
  • Diagnóstico de fobias
  • Comportamentos destrutivos
  • Sensação de vazio
  • Tentativa de suicídio
Algumas Consequências de Ordem Física:
  • Nódoas negras
  • Hemorragias
  • Fraturas
  • Dores de cabeça
  • Aborto espontâneo
  • Problemas ginecológicos
 
Alguns Contatos e Apoios Úteis:
Imagem de capa: Shutterstock/wavebreakmedia
TEXTO ORIGINAL DE REVISTA PROGREDIR
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*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.
Fonte: https://www.psicologiasdobrasil.com.br/maldade-na-violencia-psicologica-e-os-seus-reflexos-na-saude/

O mundo do crime: violência e loucura



Todos os dias se houve falar de crimes na sociedade. Mas para desvendar o mundo do crime, precisamos entender a dinâmica da violência que opera na lógica da loucura: esquizofrenia, psicose, parricídio e necrofilia.
Nessa dinâmica a figura do pai, da autoridade e da lei estão enfraquecidas na sociedade atual, tendo como o cerne diversos conflitos no campo criminal. Não é por acaso que uma parte expressiva de adultos e jovens se envolvem em crimes violentos não conheceu ou jamais soube quem foi seu pai. A figura paterna, a representação da lei, nunca estiveram presentes na vida desses sujeitos.
A psicanálise mostra que os grandes clássicos da literatura recorrem ao sentimento de culpa e angústia dos criminosos, sobretudo nas obras de Édipo Rei, de Sófocles, Hamlet, de William Shakespeare e Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, pois elas discutem o crime de parricídio, ou seja, quando o filho mata o próprio pai.
No Brasil a maioria dos presos são de baixa renda e negros, que foram abandonados pela figura do pai biológico, ignorados pelo mercado de trabalho e rejeitados pela sociedade. O Estado que representa o pai e a lei, exerce uma paternidade perversa, aprisionado os seus filhos em instituições desumanizantes.
As prisões estão superlotadas pelos filhos dos pobres, submetidos a todos os tipos de brutalidades. Os presídios no Brasil transformam os detentos em criaturas esquizofrênicas e psicóticas, facilmente aliciadas pelo crime organizado, tendo como modus operandi a vingança contra o Estado e sociedade, uma referência simbólica ao parricídio.
Muito políticos e autoridades têm um discurso necrófilo em relação a criminalidade que envolvem os pobres, exigindo uma justiça mais punitiva e apelam para construções de presídios como única solução do problema. Mas essa gente é pusilânime com o crime organizado, que conta a participação de uma elite, que para atingir seus objetivos irá extorquir, roubar e assassinar os membros sociedade e os agentes do Estado.
A polícia é chamada a resolver esses dramas da violência, envolvendo a pobreza e o crime organizado. Os policiais estão expostos a penosas jornadas de trabalho, a rígida hierarquia, a precários recursos matérias, a salários defasados, etc. Essas péssimas condições de trabalho geram sofrimento psíquico e risco de vida, levando alguns policiais a cometerem suicídios. Tudo isso é negligenciado pelas autoridades de segurança pública.
Parece que a sociedade está acordando de um sono anestésico no sentido de que essas coisas precisam ser enfrentadas e não sejam vistas como normais. Mas se tudo isso permanecer como está: o sentimento de culpa, angústia e morte atingirá sempre os mais pobres por terem nascidos em famílias desvalidas.
Imagem de capa: Shutterstock/Voinakh
Fonte: https://www.psicologiasdobrasil.com.br/o-mundo-crime-violencia-e-loucura/

O drama do ‘armário duplo’: a violência ‘invisível’ entre casais do mesmo sexo




Por Antia Castedo
Erica é argentina e tinha 21 anos quando começou sua primeira relação com outra mulher, que era sete anos mais velha que ela. Pouco a pouco, ela se viu presa num círculo de isolamento e de controle asfixiante.
“Agora, quando olho para trás, é difícil entender, mas me lembro de estar convencida de que não ia poder sair disso nunca mais”, relata ela à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC. “Me ligava constantemente, também quando estava no escritório. Se eu dizia que não podia falar, me ligava no telefone do trabalho”, conta.
Depois veio a violência física. A parceira batia na cabeça de Erica, deixava marcas no braço e, um dia, quebrou o nariz da namorada com um soco.
“No dia seguinte, disse a minha mãe que eu tinha caído”, conta Erica, hoje com 34 anos.
A história de Erica é parecida com a de muitas outras mulheres vítimas de violência doméstica, mas se difere no fato de que não é um homem o responsável pelas agressões, mas uma mulher.
E não é um caso isolado. Coletivos LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) afirmam que a violência entre casais do mesmo sexo é mais comum do que se imagina. Eles denunciam que, apesar de acontecer com frequência, pouca atenção é dada a esse tipo de violência.
“É uma violência invisível e um tabu”, assegura a BBC Mundo Paco Ramírez, presidente da confederação LGBT Colegas, baseada na Espanha.
Níveis semelhantes
Ainda que agressões, humilhações repetidas, ameaças ou controle doentio não sejam fenômenos exclusivos das relações heterossexuais, a violência entre pessoas do mesmo sexo é bem menos estudada.
Além disso, em muitos países a união homoafetiva não é reconhecida legalmente.
Na América Latina, muito recentemente, Argentina, Uruguai, Brasil, Colômbia e alguns Estados do México aprovaram casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto o Equador e o Chile reconhecem as uniões estáveis.
No caso do Brasil, especificamente, o Supremo Tribunal Federal decidiu em 2011 por unanimidade o reconhecimento legal da união homoafetiva. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça aprovou resolução que impede os cartórios brasileiros de se recusarem a converter uniões estáveis homoafetivas em casamento civil.
Embora não haja estudos globais, os levantamentos existentes, principalmente centrados em países anglo-saxônicos, indicam que o problema existe e poderia ocorrer em níveis semelhantes aos de casais heterossexuais.
Essa é a conclusão de um estudo divulgado em 2014 pela Escola Feinberg de Medicina da Northwester University, de Chicago, que revisou pesquisas anteriores que sugeriam que entre 25% e 75% de lésbicas, gays e transexuais já foram vítimas de violência doméstica, para concluir que “a falta de dados representativos e a subnotificação de casos de abuso pintam um quadro incompleto do panorama real, sugerindo taxas ainda mais altas (de abuso)”.
“A violência doméstica é exacerbada porque casais do mesmo sexo têm de lidar com o estresse adicional de pertencerem a uma minoria sexual. Isso leva a uma relutância em abordar questões ligadas a violência doméstica”, diz o psicólogo Richard Carroll, um dos autores do estudo.
Em outra pesquisa, do Centro de Prevenção e Controle de Enfermidades de Estados Unidos, que ouviu mais de 16 mil pessoas, o índice de mulheres lésbicas e homens gays que afirmaram ter sido vítimas de violência íntima (física, sexual ou psicológica) por parte dos companheiros ou ex-companheiros foi similar e, em alguns casos, superior ao de heterossexuais.
Mesmo que nenhum estudo tenha identificado se a violência doméstica é maior em casos de casais homossexuais que nos demais – os dados normalmente não indicam o sexo do agressor e podem estar relacionados a momentos anteriores aos que pessoas passaram a se identificar como homossexuais -, os achados refletem o que muitos na comunidade LGBT já viam como um fato: as mulheres heterossexuais não são as únicas vítimas de violência entre casais, não é certo que os homens nunca sejam vítimas e tampouco que as mulheres não possam ser a parte agressora.

Crenças falsas

Carlos García, trabalhador social especializado em violência doméstica, conversou com 27 homens e mulheres na Espanha que viveram situações de violência doméstica. Observou que os homens dificilmente se identificavam como vítimas. “Me diziam: É que não podia me ver como uma dessas mulheres maltratadas que aparecem na televisão. Tinha que ser outra coisa”, disse García à BBC Mundo.
“Socialmente, acredita-se que se a violência acontece entre pessoas do mesmo sexo, então tem que ser nos dois sentidos, pois não haveria dominação nem submissão”, afirma García, que compartilhou seus achados no livro La huella de la violencia en parejas del mismo sexo (“A Marca da Violência entre Casais do Mesmo Sexo”, em tradução livre).
Por isso, se é difícil para uma mulher hétero denunciar abusos do próprio companheiro, no caso dos homossexuais pode ser ainda pior. É o que está sendo chamado de “armário duplo”: além de ter a dificuldade de admitir ser vítima de violência da(o) própria(o) companheira(o), ainda tem de se identificar como LGBT a uma autoridade em que – muitas vezes – não confia.
Além disso, há numerosos casos em que os agressores ameaçam divulgar a orientação sexual da vítima no círculo familiar ou de amizades, e usam isso como mecanismo de controle. Quando a pessoa decide denunciar, nem sempre encontra instituições ou autoridades prontas para protegê-la.
“Me disseram que riram de algumas mulheres que foram à polícia contar que o agressor é outra mulher”, disse à BBC Mundo Karen Vasquez, psicóloga e coodenadora de promoção de saúde sexual da Associação de Psicologia de Porto Rico.
Algo semelhante aconteceu com um dos homens entrevistados por García. Quando ele foi à polícia denunciar as surras que recebia do namorado, não o viram como vítima, mas como alguém que tinha se envolvido numa briga.
“Se é uma pessoa trans imigrante e vítima de violência, por que vai chamar a polícia? Obviamente não se sentem seguros”, assegura Genevive Rodríguez, organizadora de La Línea, uma entidade de Boston, dos EUA, que luta contra abusos de casais em comunidades LGBT e de minorias.
O maior temor é a discriminação ou baixa confiança na atuação da polícia. Na Venezuela, os tribunais também foram identificados como importantes obstáculos para denunciar este tipo de agressão, de acordo com um estudo publicado em 2003 por Reynaldo Hidalgo, professor de criminologia da Universidade de Los Andes.

Invisíveis

Tudo isso contribui para que ganhem visibilidade apenas os casos mais extremos. Como um caso recente que foi parar nos jornais espanhóis, de uma mulher de 53 anos acusada de matar sua parceira a facadas após uma discussão no meio da noite.
Na Argentina, um espaço para mulheres lésbicas e bissexuais chamado La Fulana começou a reunir notícias sobre casos de violências entre mulheres e percebeu que estes eram relatados como briga entre mulheres, entre “amigas”, e que não aparecia a palavra “lésbica”, segundo explicou à BBC Mundo Paz Dellacasa, coordenadora geral do centro.
Segundo Dellacasa, quando uma lésbica se arriscava a fazer uma denúncia nas autoridades, o caso era registrado como uma “briga” ou “desentendimento”, e não em como violência de gênero.
“O que queremos é que nos reconheçam. O que não tem nome, não existe. E o que não existe, não tem direito”, salienta Dellacasa.
No Chile, o Movimento de Libertação e Integração Homossexual (Movilh), abriu seu próprio centro para atender vítimas que chegavam à procura de proteção por não ter aonde ir. Agora, a entidade está se reunindo com representantes do Ministério da Mulher e de Igualdade de Gênero para ajudar a desenvolver políticas públicas que incorporem as lésbicas.
“Há uma vontade de ir aprimorando as leis, mas, sem dúvidas, há também uma resistência cultura”, assegura Rolando Jiménez, porta-voz do Movilh. Jiménez disse que, apesar de tudo, no Chile, o deficit mais grave está no caso dos homens, “porque o ministério não tem competência para atendê-los”.
“Hoje em dia, não há possibilidade de um homem agredido pelo parceiro e com sua vida perigo, procurar um centro de proteção e ser acolhido nesse espaço”, diz Jiménez.

Vazio legal e resistência

Muitos países têm leis específicas para violência de gênero – mas nem sempre a legislação engloba os homossexuais.
É o que acontece na Espanha, onde a lei de violência de gênero protege apenas as mulheres que são agredidas por homens.
“Muitas feministas não querem que a lei seja ampliada para não diluir o objetivo. Por isso, optamos para pedir proteção e direitos por meio das leis específicas LGBT que estão sendo aprovadas em diferentes comunidades autônomas [regionais]”, afirma Paco Ramírez, da confederação espanhola LGBT Colegas.
No entanto, em uma audiência no Parlamento espanhol em 2009, o centro Aldarte de atenção a gays, lésbicas e trans pediu que a lei contra violência contra mulheres fosse alterada para incluir esses grupos.
Especialistas como García veem a violência contra gays, lésbicas e trans cometida por pessoas da mesma orientação sexual como violência de gênero e pedem que as autoridades a reconheçam como tal.
“A sociedade tem que entender que a violência de gênero não é somente a do homem contra a mulher, mas de tudo que se considera ‘masculino’ contra o que é ‘feminino'”, avalia García. Para ele, ‘masculino’ nesse caso são atributos como salário maior, mais força física ou prestígio social.
Sob a ótima de García, os padrões de gênero, então, podem funcionar independentemente do sexo da pessoa.
Mas a realidade é sempre mais complexa.
Erica, a argentina que apanhou da primeira namorada, era, fisicamente, mais forte que sua agressora e praticava boxe, mas nunca se defendeu dos ataques com força.
“Quando ela ficava violenta, me dava taquicardia. Tentava acalmá-la e dizia o que ela queria… Se a segurasse pelas mãos e a continha, ela ficava ainda mais violenta”, relata.
Apesar do medo das reações da companheira, tinha outra razão para se submeter à violência disse Erica: “No início, não podia acreditar que precisava me defender de uma pessoa que amava”.
Imagem de capa: Shutterstock/Antonio Guillem
TEXTO ORIGINAL DE BBC
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